2.11.09

P.467: Caim, sem polémica


Bom, agora que já o li, posso expressar com mais certeza a minha opinião sobre a polémica: não entendo por que existiu. Creio que, se quem se apressou a insurgir-se contra o livro e contra o autor tivesse tido o cuidado de ler primeiro, os clamores não teriam sido tão altos nem os propósitos tão despropositados.

Não é uma das narrativas “maiores” de Saramago – na lista das minhas conhecidas e preferidas –, mas é um livro divertido, sobretudo nos primeiros capítulos, que revisita criticamente algumas das histórias terríveis do Antigo Testamento.

De que se pode acusar o autor? Não, por certo, do desconhecimento do texto bíblico, como alguém invocou. Concedamos que um católico fervoroso poderia apontar-lhe a leitura literal dessas histórias, despidas de toda a interpretação simbólica que lhe atribuem os religiosos. Pode, sim, mas apenas isso, no tom em que se discutem as diferentes opiniões. Porque a mesma liberdade que rege uma leitura, deve reger a outra; a mesma liberdade que pega nessas histórias para delas retirar exemplos de defeitos humanos e lições que pretendem corrigi-los, pode pegar nelas para as transformar literariamente em enredos em que o justiceiro Deus se torna um anti-herói da narrativa, um mau da fita.

10.10.09

P.466: O fenómeno dos felinos

Foi com surpresa e muito agrado que vi irromper, no quadro soturno das políticas e dos seus protagonistas, o humor inteligente e refrescante dos gatos, bem cheirosos nesse meio, por muito que se apelidem fedorentos.

Agrada-me esse princípio vicentino aplicado na denúncia da pobreza e da fealdade das ideias, dos slogans e das pessoas. Temos, afinal, esta riqueza: a de um país que gera, promove e aplaude a crítica política com graça, obrigando as figuras públicas à penosa prova da gargalhada, in praesentia, expondo-se de uma maneira nova e aprendendo a encarar o próprio ridículo, num exercício bem mais difícil que o dos combates entre iguais.

Tínhamos já provas dadas de criatividade na anedota e no cartoon. Soma-se, agora esta espécie de prova oral, proposta irrecusável em que se testam as habilidades menos treinadas dos visados, que mostram ou escondem, dependendo mais da sorte e da imaginação do que da vontade, os seus “lados lunares”… Uma sacudidela, também, às suas consciências. Bom e digno de aplauso!

18.6.09

P. 465: E depois do adeus...?

Quebro o silêncio para esta pergunta retórica, porque há vidas sobre as quais não nos questionamos e que consideramos deverem durar a eternidade efémera das nossas...




Adeus. E depois? Não sei...

14.1.09

P.464: Christiane F.

Christiane F. é uma "rapariga da minha idade" e voltou a Amesterdão e às drogas. A notícia é já de Agosto de 2008, mas foi ontem que me bateu nos olhos naqueles cruzamentos de informação, sem semáforos de aviso, em que o Google gosta de nos lançar à bolina. A procura de guias de utilização segura da net, a páginas tantas (não saberei dizer quantas já abrira), desenrolou no ecrã da minha memória o cartaz de um filme a cuja estreia assisti, em inícios dos anos 80, em Paris…

Lembro que na altura foi um safanão, uma mostra triste de uma realidade desconhecida, uma decrepitude e um pessimismo circunscritos no contexto bem colorido dos tenros anos, das férias na cidade-luz entre amigas e de um futuro de aparência promissora. Mas ficou arquivado e desde então, quantos os casos conhecidos, próximos, de amigos?

Christiane F. voltou a Amesterdão e foi regressado de lá que se perdeu P., irmão da minha amiga V. e, também, A., seu outro irmão, na perda menos definitiva de uma imbecilidade fruto da recuperação. E o mesmo com M., amigo dos outros dois e com N., colega da minha irmã, e C., amiga da família. E com P., vizinho das traseiras e com… Tantos!

Christiane F. existe, tem a minha idade e, também, um filho. Voltou a Amesterdão com a criança e às drogas que a excluem do seu mundo. Perdeu a sua guarda. Perdeu a esperança?

E a pergunta surge-me, repetida, incómoda: será que alguma vez, de facto, se recupera de uma dependência?!

(Cartaz: Wikipédia)

13.1.09

P.463: CR 7



A reacção é geralmente de recusa de atenção aos protagonismos futebolísticos e até de uma certa irritação pela contrariedade que representam em relação a princípios que procuro ensinar.
Mas ontem prolonguei a sobremesa frente à televisão e “concedi” alguns minutos de atenção ao português melhor futebolista do mundo em 2008, acabando por assistir a todo o programa que a RTP 1 tinha preparado com grande qualidade: capítulos breves subordinados a temas, curtas sequências de entrevistas variadas integrando a reportagem, uma visão abrangente tocando pontos essenciais da sua vida, personalidade, características profissionais, sem maçar.
E acabei por me “reconciliar” com o miúdo, porque por trás do ar aparentemente mimado e de um discurso geralmente pobre e atabalhoado nos modos, parece estar afinal alguém com a cabeça no lugar, uma grande vontade de aprender sempre, de ser melhor, sabendo que tal exige esforço. Sendo assim, ainda que o prémio de tudo isso seja um lucro desmedido que ultrapassa em muito o salário milionário, menos mal quanto a princípios.
Por último, como sou mais propensa a desejar felicidades do que a vaticinar a desgraça, fiz votos de boa viagem ao ilhéu, compatriota distinto que com a sua sigla pequenina navega num oceano imenso de perdições…
(Fotografia RTP)

31.12.08

P.462: Quantos metros com barreiras?

Hoje acaba mais um, o civil. Lá mais à frente terminará o lectivo e, andando um pouco mais, acrescenta-se um de vida. Marcos que se nos colocam na linha do tempo e que acentuam a sensação de voragem… Somam-se as passagens e subtrai-se ao optimismo natural mais um ano de ilusões perdidas sobre o mundo.

O brinde é um paliativo, sobretudo se borbulha num bom champanhe que nos faz pairar a uma razoável distância das coisas. À nossa, que bem precisamos!


(fotografia original de Marta Lima)

1.12.08

P.461: A neve caía... mas não bateu de leve a avisar.

(Fotografia: Público online)


O Homem põe e a Natureza dispõe.
Sete horas e meia de bloqueio numa serra nevada: almoço de bolachas Maria, cortesia de uma parceira de viagem e de infortúnio; necessidades básicas satisfeitas com o recato (pouco) possível; solidariedades de fora, através de telefonemas – a rede não congelou, valha-nos isso –, mas sobretudo “de dentro”, entre aqueles que contavam viajar anonimamente juntos durante hora e meia e se viram prisioneiros do mesmo cárcere no melhor de um dia de sábado.
Este país nunca se conformou com o Inverno puro e duro que às vezes também lhe bate à porta. E, por isso, nunca se preparou para ele. Um nevãozito daqueles de fazer rir qualquer povo de outras latitudes e paramos nós por cá, nas serras e cercanias. Falta de vigilância, de aviso, de decisões de desvio de trânsito atempadas. Falta de meios: limpa-neves e sal são ainda luxos num Portugal nem sempre tão europeu quanto se arroga.
E é assim que se testam os nervos, que se reaprende a humildade de “bicho homem tão pequeno” no cenário dantesco dos elementos adversos conjugados.
Perdeu-se o dia e, por falta de fé, tão retemperadora nestes casos, não podemos sequer pretender que nos sirva de remissão dos pecados…

22.10.08

P.460: Da saciedade e da negligência

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A comida é boa e a ementa razoavelmente variada. No entanto, naquele dia em que prolongámos o jantar com uma conversa demorada, o pessoal da casa, uma família que se dedica com sucesso à cozinha tradicional numa antiga tasca remodelada, mandou vir pizza, sentou-se na mesa do fundo e deliciou-se com o “pitéu” da concorrência…! Razões? Está bom de ver: a nossa comida também cansa… estamos um pouco saturados. Ganhou a franqueza à publicidade.
Motivada, talvez, pela visão do prato italiano em vez do esperado bacalhau assado, recordei o desespero dos tenagers da família numa semana de férias passada em Itália: Que é feito da boa lasagna, dos cannelloni suculentos, do delicioso spaghetti alla bolognese…?! Nesse particular a expectativa italiana gorou-se-lhes! Tão apreciada no mundo e tão internacional e ali, no país onde nasceu, pouca oferta e sofrível qualidade…!

15.10.08

P.459: [ãtoniu loβu ãtune§]


Lembrei-me várias vezes dele o fim-de-semana passado, de crónicas de um seu livro lido há muitos anos. Falava de gente apanhada nos pequenos, repugnantes, ridículos detalhes das suas figuras e situações, captados por um olhar inclemente que, à vista desarmada, não parece ser o do autor, mas ali – e tantas outras vezes – se revela assim. Era o montículo de caspa sobre o ombro, o pedaço de comida entalado nos dentes, a melena besunçosa roçando-nos o rosto no beijo de cumprimento, o cheiro sovacal que nos apanha na passagem, o ponto negro pontuando o queixo luzente, pêlos abundantes ou, pelo contrário, rarefeitos, jovialidades parvas, efusividades desmedidas, apertos de mão amolecidos… Ou se não era isto, eram coisas de idêntico calibre, humanas misérias, enfim. E, na altura, pensei na tristeza e solidão de quem assim perscrutava um mundo circundante de companhia tão lamentavelmente feio!
Mas talvez seja, afinal, mais uma questão da responsabilidade do tempo, esta do atentar sem remédio nos pequenos, repugnantes, ridículos detalhes das figuras e situações. Vem-me acontecendo agora. No sábado, dia de “evento” cultural, com alimento para o cérebro e para o estômago, sofri quase até ao vómito essa visão radiográfica da companhia circundante, entre petulâncias e alarvidades, fugindo quanto pude tanto a perdigotos de comensais como a snobismos de intelecto… E sou eu agora que me lamento por assim escrutinar um universo triste de pequenas misérias humanas.
Lembrei-me de António Lobo Antunes.

11.10.08

P.458: Diálogo simplificado das emigrantes falhadas



– …
– Pois é… Olha, devíamos emigrar!
– Já pensei nisso, sabes?...
– Sim? Também tenho pensado. Mas pra onde? África?...
– É um continente perdido. América?
– Há duas, os States e a outra… e nenhuma agrada. Violência, pobreza, corrupção no seu pior…
– Da Ásia, também, o quê…? Pobreza, conflitos, catástrofes naturais… Escapa o Japão, mas ui, que abismo cultural!...
– E os países da Europa, ou sofrem dos nossos males ou estão em vias disso!
– A Suíça não, por exemplo.
– E queres morrer de tédio?!
– Um nórdico?
– Pra sermos emigrantes tristes num país sem Sol?!...
– Humm…
– Bom… Cinema sem pipocas na 2ªf?

10.10.08

P.457: Sistema simplificado de avaliação dos professores

Uma ilustração fiel!
(Recebido por email)

7.10.08

P.456: Vindimas no Douro





A Natureza gosta de nos deixar no embaraço das palavras frouxas, que não dizem da beleza que oferece nem da emoção sentida na contemplação dos seus cheiros, temperatura e cores...

2.10.08

P.455: Crónica de dependências declaradas

Na casa dos 40, conterrâneo, conhecido de vista, de sempre, nunca antes me dirigira a palavra.
Ontem veio, olhar vago e tratando-me por “minha senhora”, pedir dinheiro para o autocarro. A mão trémula recolheu a moeda que a minha, triste no gesto, ali depositou. Nem um agradecimento. A dádiva ficara aquém do preço da sua viagem…
Para mim o custo maior é em tristeza. Vêm, encadeadas, as histórias deprimentes de misérias conhecidas, destas e doutras naturezas. Fico entre fantasmas e almas penadas, debatendo-me em defesa do precário lenho de optimismo que me resta neste naufrágio que é viver…
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29.9.08

P.454: Primeiro encontro com Paul Newman

Na gama de cinzas do preto e branco televisivo, uma cor de olhar feita de brilho e força. Corpo tenso, pose contida, uma aura de beleza que a promessa de mulher que eu era nunca vira antes!

E a impressão forte que ficou abriu, nessa noite, promissoras vistas e novos interesses num futuro que tardava...

(Fotografia: thecinemasource.com)

24.9.08

P.453: Apeadeiros...




Correm as festas ainda na alvorada do Verão.
Abrem-se e fecham-se malas em fugas de partichegada.
Eclipsou-se Agosto. Meio Setembro voou. Instala-se o Outono, passageiro como os demais, em rota para a Invernia.
E assim os trimestres e os anos.

21.9.08

P.452: Livre arbítrio

Se mais razões não houvesse, a mera possibilidade de sujeição a uma disciplina de voto era, para mim, suficiente para não abraçar um partido, não me querer representante política de nada…

Trabalhadora por conta doutrem, tenho não raro que executar políticas em que não acredito, implementar procedimentos de cuja eficácia duvido, defender a bondade de princípios sobre os quais me subsistem reservas. E procuro fazê-lo com o afinco do advogado apostado em provar a inocência de um culpado ou a culpa do inocente. Cumpro.
Mas votar é bem outra coisa! Dizer que quero, não querendo, recusar contrariada, afirmar ou negar não tendo a opinião formada... estariam seguramente acima da minha vontade de pertença ao grupo!

20.9.08

P.451: Aquele abraço...


13.9.08

P.450: Da lágrima e do choro

Questionário sobre a lágrima e o choro. :-)

Habituada a responder sobre coisas concretas, estatísticas, …., chatérrimas, olho com interesse as cinco questões que têm como objectivo saber o que as pessoas pensam, sentem e escrevem sobre a lágrima.
Manda-mo uma prima artista que trabalha o tema para uma peça. É de crer que seja difícil responder, compreende a autora que os inquiridos precisem de tempo para pensar.
Sem pensar, respondo. Penso depois, quando, concluindo, me apercebo da prontidão e da rapidez das respostas. Mas não, não é de admirar. Tenho com o choro uma relação de velhos amigos.
E, pensando bem, é extraordinário o choro! Bálsamo, terapêutica, paliativo da dor, do choque, dos sentimentos extremos, primeiro socorro… E vem-nos “incluído”! :-)


Para quem se sentir desafiado a pensar nas próprias lágrimas, ficam as perguntas:

1- O que é a lágrima?
2- Quando foi a última vez que choraste? Porquê? (descrever esse momento)
3- Em que filme(s) choraste? [descrever a(s) cena(s)]
4- Que música te faz chorar?
5- Qual a tua relação com o choro? (choro por felicidade, por tristeza... retracção do choro?...)

10.9.08

P.449: Credo!


Creio em mim – e nem sempre –, porque me sei por dentro. Creio na Natureza, conceito vasto em que incluo as Física, Biologia, Química que regem a essência do Universo (a Matemática parece-me só analítica, não “geradora”…, mas admito estar a cometer uma heresia).
Acredito depois, numa forma diferente de acreditar, na arte. Acredito tanto nela que, não sendo crente na bondade sem mácula do Homem, creio na sua representação na simplicidade desta cruz!
Cristo existiu, está historicamente comprovado. Foi provavelmente um homem bom e seguramente um líder. Teve, por certo, defeitos, o que a meu ver o torna mais credível. Mas a simplicidade que foi seu lema e que os vindouros não quiseram seguir, está aqui. Representação bela e simples, como uma doutrina em que se pode acreditar. O lenho torcido de um ser sobre as estacas hirtas de um castigo…
Há muito que esta fotografia me desafiava! Foi hoje.
...
Notas finais:
1) A única oração que conheço é o "Pai Nosso".
2) Fotografia tirada em Fátima, em Junho de 2008.

9.9.08

P.448: Divórcio

«O casar e ò calçar é ò gosto»
(Dito popular, com pronúncia nordestina)

Não tenho especial simpatia pelo Presidente da República Portuguesa, nem considero, habitualmente, interessantes as suas parcas intervenções na vida do país. É, dizem, um bom economista. Será, talvez, boa pessoa. Mas o “meu” Presidente, até ver, foi Jorge Sampaio.

Hoje, no entanto, acabo de seguir um conselho de Aníbal Cavaco Silva. Com alguma curiosidade em saber o que há no diploma que altera o Regime Jurídico do Divórcio, e o que suscitou um veto de alguém tão contemporizador, fui ler a mensagem que o chefe da nação endereçou à Assembleia.
O que me parece é que o divórcio de que aí se fala e aquele que se adivinha ser o da proposta de alteração legal (que não conheço na íntegra) partem de duas concepções de casamento e de família diferentes. O Presidente desenraíza a tradição, os deveres conjugais, a noção de culpa associada ao seu incumprimento, a difícil contabilização do contributo doméstico na economia familiar, a desprotecção dos filhos. Até aqui, entende-se na generalidade, ainda que não se concorde na especialidade. Infeliz o exemplo que vai buscar para os casos de mulheres vítimas de maus tratos. Veja-se:
«Assim, por exemplo, numa situação de violência doméstica, em que o marido agride a mulher ao longo dos anos - uma realidade que não é rara em Portugal -, é possível aquele obter o divórcio independentemente da vontade da vítima de maus tratos».
Quererá a vítima de maus tratos opor-se à separação do seu carrasco?! Enfim, não fiquei bem esclarecida quanto a este ponto. Parece-me, no entanto, que o Presidente tem razão numa coisa: a nova lei poderá aumentar a conflituosidade, num Portugal em que “a realidade matrimonial” tende a ser, mas ainda não é integralmente de “igualdade entre os cônjuges aos mais diversos níveis”.
Na base de tudo isto, porém, há algo que nenhuma lei impõe, do mesmo modo que do seu oposto nenhuma livra: casamento é uma união de duas vontades. Se uma se extingue, não há união, não é casamento.

6.9.08

P.447: – O jantar está servido!


P.446: A propósito da palavra rentrée

Há em cada língua palavras que dizem mais e melhor do que as suas “sinónimas” noutras línguas, para já não falar nas que de todo encerram significados com cambiantes intraduzíveis, como a nossa portuguesíssima saudade.
Rentrée, por si só, diz do regresso ao trabalho, da despedida das férias, do recomeçar da actividade, da retoma, da volta, daquele tempo primeiro que se segue ao descanso…
Se fosse poliglota, faria fortuna recolhendo e juntando as palavras mais ricas de cada língua conhecida…

5.9.08

P.445: Uma crónica para a rentrée


A culpa é do gene?!

Primeiro é preciso lembrar que sou um pouco míope. Acrescentar que o levantar de manhã não me acorda do sono que só me larga aos poucos, contrafeito. Saber que antes do pequeno-almoço, definitivamente, há que não confiar em mim…
Foi ontem ou anteontem. Deu-me para me informar sobre o país e o mundo – expressão registada? – loguinho ao sair da cama. Vim na incerteza dos primeiros passos abrir o «Público» no meu computador pessoal e descortinei num rompante, em primeira página, esta coisa insólita: em letras relativamente gordas e negras, visíveis ao meu olho ainda remeloso, o nome de Paulo Pedroso encimando a imagem bonita, transversal, de uma pila repousada entre pelos encaracolados, num baixo ventre pétreo de estátua…!
Por breves momentos, o deputado que ali estava, creio, pelo peso de uma indemnização ganhou uma leveza de Apolo confundido em associação sonâmbula de texto e ilustração desavindos.
Breves instantes. Foi afinal o texto a que me conduziu essa imagem que sacudiu um resto de sono numa quase gargalhada. Artigo científico publicitando uma descoberta extraordinária e, digamos, conveniente, tão conveniente que não sei se o estudo não terá sido feito por encomenda de uns tantos interessados! Título: “variante genética está associada ao divórcio e à infidelidade mas só nos homens”. Lendo, fica-se a saber que 40% dos homens possuem a dita variante genética “alegadamente” responsável pela sua maior apetência para a promiscuidade sexual…
Coisas sérias à parte, a vagabundagem masculina encontrou definitivamente aquela justificação de último recurso que lhe faltava e com todo o peso da ciência: a culpa é do gene que regula a acção da hormona vasopressina!
Por isso, não há volta a dar: agora só mesmo exigindo um certificado de fabrico, garantia de qualidade.

18.8.08

P.444: Jogos Olímpicos

O sonho de alguns e o pesadelo de muitos... a fazer lembrar outras ditaduras.

(Trabalhos dos alunos da minha escola)

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
(...)


Chico Buarque

10.8.08

P.443: Algérie, un pays au conditionnel

Et alors, ça va l’Algérie, ça vous plaît ?

Ça va… ça va… Bien-sûr que si les rues étaient des rues, s’il y avait des trottoirs, moins de déchets partout… ça irait un tout petit peu mieux…
Ça va… Évidemment que si les immeubles étaient moins pourris, si les constructions étaient terminées, si les bâtiments étaient peints et moins sales, s’il y avait moins d’antennes et plus de plantes et de fleurs sur les balcons, ça serait plus harmonieux…
Ça irait… si c’était pas l’hypocrisie des hommes dont les épouses se présentent cachées en vêtements de la tête aux pieds, tandis qu’ils ne ferment pas les yeux aux autres, celles qui se sentent libres ou qui ont des maris moins hypocrites…

Ça va pour l’élégance des femmes – mêmes celles qui se déguisent en « sac aux pommes de terre», mais qu’on devine minces et bien dessinées –, mais ça va pas pour le manque total de la même qualité chez les hommes qui paraissent ne pas savoir même pas ce que c’est une coiffure, un pull sympa, un déodorant agréable…
Ça va pour le paysage de la côte, à condition de regarder de loin… Ça va pour l’affabilité des gens, à condition de ne pas les énerver…
Ça va… mais… ça irait bien mieux si le confort ne se payait pas si cher, si les règles étaient suivies, si, en tous les sens, les voies et les issues étaient claires et définies…
Et alors, l’Algérie?
Si…

5.8.08

P.442: Sentidos...